Admirável mundo novo dos materiais
Você se sente sobrecarregado pelo número de gadgets e objetos ao seu redor? E se você tivesse apenas alguns poucos, capazes de executar diversas funções diferentes? Lining Yao e seus colegas pesquisadores dos Estados Unidos estão trabalhando para que isso se torne uma realidade.
Um calçado que se molda a seu pé. Uma pulseira que se transforma em telefone. Uma flor que muda de forma e cor quando regada. Um sachê de chá que se enrola depois que a bebida fica pronta.
Estes são alguns dos conceitos e materiais sonhados e pesquisados no Grupo de Mídias Tangíveis do Laboratório de Mídia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), coordenado pelo professor Hiroshi Ishii. Um produto que já atingiu o estágio de protótipo é chamado tecido biológico, um material à base de bactérias que responde ao calor e à umidade.
Furos para respiração em roupas feitas com esse tecido abrem-se quando a pessoa está suada e com calor. A equipe bioLogic foi conduzida por Lining Yao e outros membros incluem Wen Wang, Guanyun Wang, Helene Steiner, Chin-Yi Cheng, Jifei Ou, Oksana Anilionyte e Alana Solá.

Lining Yao é doutoranda de quarto ano no MIT, onde juntamente com seus colegas tem trabalhado nesses conceitos e em muitos outros, buscando identificar os materiais do futuro. Ela falou com a Metalworking World sobre seu trabalho.
Você cresceu na Mongólia Interior, China. Como essa experiência inspirou seu trabalho?
Eu vim de um lugar onde não havia computador ou televisão, e minha única mídia vinha da natureza. Por exemplo, eu costumava catar pinhas na floresta. Após uma chuva, as pinhas ficam abertas, mas quando você as leva para casa e as deixa lá por alguns dias, elas voltam a se fechar. Eu sempre achei a pinha um material muito inteligente. Elas podem se abrir e se fechar muitas vezes - é uma transformação reversível, e o estímulo é a umidade no ambiente. É muito parecido com o jeito que o material biológico funciona.
Em que tipos de materiais vocês estão trabalhando hoje?
No projeto bioLogic, nós estudamos um tipo de bactéria chamada natto [usada para fazer uma receita de soja fermentada muito popular no Japão]. É semelhante às pinhas, uma vez que expande ou diminui em função do percentual de umidade no ambiente. Em seguida, usamos bactérias tamanho mícron para fazer coisas diferentes, como flores que mudam de cor ou abajures que mudam de formato. Mas a maior aplicação são as roupas ativadas pelo suor.
Em que outros projetos você está envolvida?
Antes do projeto bioLogic, eu estava trabalhando com materiais pneumáticos em conjunto com os pesquisadores Ryuma Niiyama, Jifei Ou e meu orientador Hiroshi Ishii. O principal deles se chamava Pneumatic User Interface, no qual usamos técnicas de robótica soft. Fizemos estruturas macias e infláveis que mudam de formato, como telefones, lâmpadas e capas de iPad. É tudo muito visual, então em vez de explicá-las em palavras, seria mais fácil assistir a alguns dos vídeos que estão on-line (veja abaixo).

Fale sobre seu trabalho com calçados.
Eu e meus colegas, Jifei Ou e Daniel Tauber, fizemos um calçado que muda sua respectiva rigidez em colaboração com a New Balance. Seus designers de roupas esportivas tinham mencionado os diferentes cenários necessários para o uso. Por exemplo, quando você anda você precisa de um calçado tão suave quanto possível, mas quando você corre, você precisa de apoio, e quando vai escalar ou caminhar você precisa que ele seja rígido. Então a questão é, como você pode dinamicamente ajustar a rigidez em diferentes áreas do calçado?
Você está trabalhando para comercializar algum desses projetos?
Nós somos um laboratório de pesquisa, por isso estamos mais interessados em uma visão de longo prazo do que na comercialização de produtos. Temos também algumas barreiras técnicas. Por exemplo, o tecido não é lavável, por isso, tentamos pensar em situações específicas de uso único, como os Jogos Olímpicos, onde uma camisa seria utilizada por poucos dias. Nós gostaríamos de vê-lo amplamente utilizado, mas não temos o escopo para explorar plenamente o mercado.
Você já está trabalhando no que chama de "materiais responsivos" há vários anos. Como você vê o futuro deles?
Materiais responsivos vão, definitivamente, desempenhar um papel muito interessante no futuro. Com "responsivo" quero dizer que os materiais começam a ter o seu próprio comportamento e inteligência. Eles podem sentir diferentes estímulos ambientais, ou como as pessoas estão interagindo com eles, e ele pode reagir na forma, cor, rigidez ou propriedades ópticas, mecânicas ou elétricas. Por exemplo, o calçado pode sentir se você estiver a pé ou de bicicleta e, em seguida, calcular suas diferentes necessidades de rigidez para apoiar a atividade. Ou a peça pode sentir quando você começa a suar e abrir automaticamente. E depois de esfriar pode se fechar para manter o seu corpo quente novamente.
Como seu trabalho contribui para a sustentabilidade?
A ideia de materiais responsivos é fazer uma coisa que pode ser usada em vários cenários. Eu fui treinada como uma designer industrial para escolher diferentes materiais e, assim, criar produtos diferentes. Digamos que você precise de duas cadeiras. De manhã você quer uma não muito confortável para um rápido café da manhã, de forma que você não se acomode e perca a hora. Mas à noite você quer uma cadeira lisa e macia. A essência do material responsivo é a ideia de que uma coisa pode ser adaptada para diferentes situações. Pense que em vez de comprar cinco cadeiras para diferentes usos, agora você pode comprar apenas uma e ela irá se ajustar automaticamente em rigidez e forma. Embora os estudos ainda sejam preliminares, se os materiais são robustos o suficiente e se comportam bem, eles ajudam a reduzir o número de produtos que você precisa comprar.
Você tem algum conselho para os profissionais da indústria de materiais?
Eu trabalho em uma instituição multidisciplinar, e acho que a interação entre as diferentes disciplinas é muito importante. Muitos cientistas pensam que o trabalho do designer é tornar sua invenção mais sofisticada. Designers se enxergam como uma ponte entre o cientista e o usuário final. Mas para mim, invenções realmente surgem da compreensão da força dos outros. O cientista e o designer têm diferentes imaginações com base em suas diferentes formas de pensar. Assim, gostaria de encorajar uma colaboração mais interdisciplinar e ter a coragem de fazer algo que você não esteja familiarizado.
Videos
Assista aos vídeos sobre os projetos e materiais de Lining Yao.
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