Nós construímos essa cidade
Na Coreia do Sul, uma das mais novas cidades inteligentes do mundo abraçou a conectividade e a sustentabilidade. Como a tecnologia pode ser aplicada para o mundo da fabricação?
As visões das cidades do futuro tendem a ser exageradas. Carros que flutuam, teletransporte humano, telas holográficas e prédios de vidro e aço são parte das visões fictícias da vida urbana no século XXI. Depois, existem as visões da indústria, com os robôs e automação na fabricação das coisas que uma vez foram construídas por mãos humanas.
A realidade, pelo menos até agora, é um pouco diferente. As grandes tendências e mudanças não estão ocorrendo para o indivíduo, mas sim para cidades inteiras. Em vez de mudar a forma como interagimos com o mundo, a tecnologia está mudando a forma como o mundo interage conosco. Nos últimos anos, vimos o surgimento da cidade inteligente e Songdo, na Coreia do Sul, é um dos principais exemplos do mundo.
Songdo começou do nada. Em 2000, era um pântano ao longo da borda do Incheon. Alguns anos depois, com a ajuda de alguns milhões de toneladas de areia e concreto e muitas horas de construção, uma cidade inteira foi formada. Ela foi sempre planejada como uma cidade inteligente e foi construída desde o início para incorporar tudo o que "inteligente" envolve.
“O aspecto mais impressionante da cidade deve ser o fato de ela existir", diz Colin Marshall, um ensaísta e radiodifusor que mora em Seul. "Não só os seus desenvolvedores conseguiram fazer todo o lugar se erguer e funcionar mais rápido do que a maioria das grandes cidades no Ocidente podem executar um único projeto, tudo em um lugar em antes não havia nem terra.”

Talvez, o mais impressionante seja o aspecto de sustentabilidade do projeto. Songdo possui 106 edifícios com certificação LEED (Leadership in Energy and Envronmental Design), o que significa que esses prédios são extremamente eficientes no uso de recursos. Eles usam menos água e têm um impacto extremamente positivo nas emissões de gases de efeito estufa. Os residentes também podem facilmente monitorar e otimizar seu próprio uso de energia, pois todas as comodidades podem ser controladas e analisadas através de um único painel nos espaços de moradia ou de escritório.
Outro sinal que mostra a consciência ambiental no coração de Songdo é a quantidade de espaço verde. A cidade é construída em torno de um parque central. "Isso torna a selva de concreto mais aceitável", diz Maria Teresa Bilotta, uma fotógrafa que visita Songdo para um projeto.
Outra grande inovação é o sistema de disposição de resíduos. Embora possa não parecer fascinante, o impacto que o sistema tem sobre o meio ambiente, bem como sobre os residentes, é revolucionário. Em vez de ter as pessoas classificando seus próprios resíduos em vários recipientes de reciclagem, este processo é totalmente automatizado após o lixo ter sido jogado fora. O sistema recicla tudo o que pode ser reciclado e transporta o resto para um local separado. Isso significa que não há dias com coleta perdida, nem latas de lixo na rua, e sem desperdício. Todo o sistema também é gerenciado por apenas sete pessoas, sem necessidade de caminhões de lixo.
Dispositivos e sensores mantêm a cidade segura e eficiente. O trânsito é monitorado e os semáforos se ajustam de acordo com o fluxo ao invés de se basearem em temporizadores. Sensores no solo podem detectar a possibilidade de terremotos e avisar os moradores. A polícia pode facilmente monitorar áreas e prender criminosos com base em imagens ao vivo, se necessário. As luzes das ruas podem se adaptar de acordo com o trânsito de pedestres, iluminando as calçadas onde é necessário e economizando energia quando não for.

Mais do que a própria cidade ser conectada, muitas das casas também são. A Cisco desenvolveu um sistema de telepresença que permite que os residentes se comuniquem uns com os outros, agendem aulas de ioga em vídeo ou simplesmente façam compras.
No entanto, nem tudo foi tão fácil quanto parece, como o crescimento populacional, que não foi tão rápido quanto o previsto. Isso se deve, em parte, à distância da capital Seul. Há esperanças para a construção de um sistema ferroviário de alta velocidade que irá mudar isso, mas no momento leva mais de uma hora para viajar entre as duas cidades, tempo suficiente para espantar muitos trabalhadores que teriam que fazer esse trajeto diariamente. "A própria novidade de Songdo prejudica os benefícios da vida urbana que seus desenvolvedores afirmam fornecer", diz Marshall. "Tudo tem a sensação de crescer rapidamente, mas de forma inorgânica". Isso é compreensível, dado que é uma cidade que apareceu do nada em um curto espaço de tempo. "Somente o tempo pode transformar Songdo em um lugar com uma identidade distinta", diz ele.
E já existe evidência disso. Embora seja uma visão do futuro, sementes da cultura já estão sendo espalhadas. "O que eu percebo quando vou para Songdo", diz Marshall, "é a forma como a essência coreana permeia o design urbano internacional - as senhoras idosas que vendem lulas secas no parque, as estátuas da fonte em forma de crianças que urinam na Canais, as incomuns figuras de linguagem que marcam o inglês coreano". Todos esses aspectos ajudam a desenvolver o caráter de Songdo para acrescentar às suas linhas limpas de vidro e aço.
Até agora, como um experimento, a cidade pode ser considerada um sucesso. Claro que há coisas para melhorar e coisas para aprender, mas como uma prova de conceito, é impressionante. "Certamente se parece como uma ideia da cidade do futuro", diz Marshall.
O que ainda precisa ser visto é como as cidades e indústrias ao redor do mundo reagem. Afinal, tudo em Songdo pode ser adaptado e dimensionado para atender a qualquer necessidade, desde uma fábrica até um parque temático. Agora, trata-se de olhar para os dados, aprender com eles e utilizar essa abordagem inteligente para permitir que outro ambiente caminhe para o futuro. O que o futuro carece do glamour de carros flutiantes e teletransporte ele compensa com um mundo inteligente, sustentável e incrivelmente eficiente.
O que é uma cidade inteligente?
Uma cidade inteligente é uma área urbana em que a tecnologia é utilizada para garantir que tudo corra da forma mais eficiente e fluida possível, além de ser uma cidade totalmente sustentável. Tudo tem sido facilitado pela internet das coisas e por big data, e cada vez mais cidades já existentes estão adotando novas tecnologias para levar novos elementos inteligentes a lugares antigos.
Distrito internacional de negócios de Songdo
A visão da Sandvik Coromant
O impacto real das cidades inteligentes ainda será visto, mas a maneira como elas funcionam certamente pode inspirar diferentes indústrias e negócios. Afinal, a inteligência não está na cidade em si, mas na tecnologia que a impulsiona e a maior força motriz por trás dessas modernizações é a Internet das coisas. Falamos com Jan Edvardsson, analista de mercado da Sandvik Coromant, sobre como esses avanços podem ser aplicados no mundo da manufatura.
“Já existem muitas semelhanças entre os dois", diz Edvardsson. "Assim como as cidades inteligentes e suas infraestruturas, a indústria de transformação também considera o impacto que a Internet das Coisas pode ter nos processos e na forma como as coisas funcionam”.

A Internet das coisas está mudando o mundo ao nosso redor e, combinada com o big data, ela pode ser extremamente poderosa, diz Edvardsson. Para o mundo da manufatura, isso envolverá o uso de sensores para fornecer dados valiosos aos usuários. "Os sensores também são usados na fabricação", diz ele. "Com o CoroPlus, podemos monitorar ferramentas e máquinas de corte, transmitir os dados, processá-los e analisá-los. Podemos otimizar todos os processos e reduzir os custos em longo prazo.
“Isso também torna o processo de fabricação mais sustentável ", continua ele. "Através da otimização, você pode reduzir o tempo de uso das máquinas, bem como certificar-se de que elas estão atuando da forma mais eficiente possível. A sustentabilidade é uma das forças motrizes e a IoT é um dos principais recursos.”
Tal como acontece com qualquer tecnologia nova e, particularmente, para dispositivos conectados, a segurança é uma preocupação fundamental por ser absolutamente essencial. Para as cidades inteligentes, a infraestrutura não pode ser vulnerável a hackers, e o mesmo se aplica à manufatura.
"Os desafios são os mesmos", diz Edvardsson, "mas com a indústria de manufatura é mais vital que a segurança seja uma prioridade, pois tem um grande impacto na segurança dos funcionários. Obviamente, todos os produtos Sandvik são amplamente testados em relação à sua segurança".
Não podemos ver o futuro, mas é claro que, assim como as cidades inteligentes parecem ser a onda do futuro, a tecnologia em que elas se baseiam mudará a maneira como trabalhamos.
